Eu tinha
certeza que estava destinado a algo grande, a algo que apenas eu poderia fazer,
a algo que... Desculpem-me, destinado não, pois não acredito nessa bobagem de
destino. Eu tinha certeza que faria algo grande pelo qual seria reconhecido,
pelo qual seria imortal.
Inventei
certas engenhocas, é verdade, algumas de utilidades, outras, por mais interessantes
que fossem, geraram polêmica, claro, a culpa não era minha e sim de seus
usuários. Ah! Vocês deviam ver, era fantástico, um gravador de sonhos. Imaginem
só, poder ver o sonho que teve durante a noite na tela do computador feito
filme? Mas algumas pessoas reclamaram, pediram o dinheiro de volta, disseram
que era invasão da única privacidade que lhe restavam e mais vários outros
argumentos que não cabem aqui. Mas por que usaram se queriam privacidade? Não
tenho culpa se eles sonham com a vizinha ou com a cunhada ou que estão matando
seus professores. Infelizmente o governo confiscou todos os gravadores de
sonhos do mercado e me proibiu de desenvolver projetos similares, não tem
importância.
Deixa-me
voltar na história que quero contar. Sabendo que estava destinado. Não,
destinado não, quem foi que inventou esse troço de destinado? Sabendo que eu
faria algo grande em minha vida e muito curioso para saber o que era (sim, sou
ansioso, não pude me conter) resolvi desenvolver uma maneira de viajar no tempo
e descobrir logo o que eu faria (ou farei, estou confuso). Estudei as
possibilidades e consequências. Consegui, depois de cinco anos, desenvolver
minha “máquina”.
Eram três
lentes, que colocadas uma em frente à outra, formando um triângulo, poderia
transportar qualquer coisa para qualquer momento do tempo. Porém, minha grande
dúvida era, em que momento do futuro deveria ir para saber se já tinha criado
algo grande. Não era inteligente usar a “máquina” muitas vezes, pois havia
consequências, minhas moléculas desfaziam e se refaziam e em cada viagem meu
corpo ficaria mais fraco. Programei minha invenção para ir 30 anos no futuro,
acho que era suficiente. Fui.
Quando
cheguei em 2041, a
primeira coisa que vi na TV foi: “Governo declara que a culpa dos roubos
históricos é do cientista...” Minha culpa? O que eu inventei que fui culpado
por roubos? Meu laboratório estava fechado. Algumas inscrições em sua porta:
“maluco”,“ladrão”,“louco” e alguns palavrões. Bom, descobri, lendo alguns
jornais, que em 2038 fiquei famoso por ter aperfeiçoado um invento que fiz há
27 anos. Sim, a “máquina”. Porém em 2040 um grupo secreto invadiu o laboratório
e a levou e desde então estão usando-a para fazer furtos de objetos do passado.
Começaram com pequenos roubos. O pino de ouro de uma estrada de ferro, um dos
chapéus do Chaplin, entre coisas que as pessoas apenas pensavam que havia
perdido. Depois ficaram mais ousados e roubaram quadros, alguns pergaminhos da
biblioteca de Alexandria antes dela pegar fogo, o primeiro relógio de pulso de
Santos Dumont e o cavalo Branco de Napoleão. Parece que ele ficou deprimido,
cabisbaixo, não gritava tanto. Arrumaram outro cavalo parecido, mas não teve
jeito, Napoleão ficou muito triste. Há boatos que foi por isso que ele perdeu a
batalha em Waterloo.
Houve
consequências físicas. Os jornais também diziam que algumas estruturas do
universo foram enfraquecidas no instante que fiz a viagem e as grandes forças
foram comprometidas. As chuvas, às vezes, eram acompanhadas de uma enorme
descarga eletromagnética, estragavam equipamentos e derrubavam aviões o que
causavam muitas mortes. Os terremotos, furacões e maremotos aconteciam com mais
frequência. Em alguns lugares da Terra a gravidade alterara sua força o que
infelizmente também matou várias pessoas, ou por ser fraca ou muito forte.
Esses locais foram demarcados como área de risco. O governo falava que a qualquer
momento poderia surgir novos lugares com instabilidade gravitacional.
Como não
previ isto? Estudei cada detalhe e consequência. Diante desses fatos, tive a
certeza, seria imortal por criar a máquina do tempo, mas seria imortal por ser
odiado e não amado e reconhecido por todos. Resolvi voltar e me impedir criar a
máquina. Mas, não consegui, alguma coisa
estava errada.
Passei a
noite no laboratório tentando resolver o problema, fiz e refiz os cálculos,
estavam certos, mas por que a máquina não funcionava? Estava fraco, minhas mãos
tremiam, e não conseguia raciocinar mais. Dormi.
Na manhã
seguinte a tremedeira continuava. Comecei a ficar desesperado e tive apenas uma
decisão depois disto: ir onde meu eu futuro estava preso e falar com ele, ou
comigo.
Descobri
que apenas com horário marcado é que se podia visitar um detento. Marquei para
o dia seguinte. Eu estava horrível, cabelos longos e barba por fazer, os olhos
muitos tristes e a tremedeira na mão muito forte.
— Esperei
muito por isso – ele disse.
— O que?
— Este
momento aqui, em que você vinha falar comigo, descobri muitas coisas depois que
conversamos a primeira vez.
— Já
aconteceu antes?
— Já, mas
era eu aí e um outro nosso aqui.
— Quantas
vezes isso já aconteceu?
-- Não
sei.
-- Que
estranho, achei que fosse a primeira.
— Não.
Quanto pesa agora?
— Uns 70
quilos.
— Então. O corpo de um homem de 70 kg tem,
aproximadamente, 7x10^27 átomos e seu corpo, nosso corpo perde um
pouco de átomos à cada viagem, por isso, as tremedeiras - Sempre fui assim,
dando informações exatas, vejo que não perderei alguns hábitos- Mas você veio
perguntar por que não esta conseguindo voltar, não é?
— Sim,
não consegui fazê-la funcionar.
— Claro
que não, no laboratório é uma zona neutra, nada funciona ali e a máquina
precisa de muita energia para poder funcionar, você tem que levá-la para fora
do laboratório, para um descampado próximo ao lago. Aí ela vai funcionar.
— Ótimo,
agora é só voltar e impedir que criemos a máquina.
-— Não
idiota, já tentei isso, e a máquina sempre é construída. O que você deve fazer é
voltar no exato momento em que veio para cá e impedir que nossa outra versão
entre na máquina.
— E o que
acontecerá depois?
— Não
sei, iremos desaparecer, talvez.
Despedi-me
e saí. Tinha muito o que fazer, levar a máquina para o descampado, voltar e me
impedir de entrar nela.
Agora ela
funcionava, programei o destino e entrei.
Em 2011,
deparei com meu outro eu olhando para nossa obra, as lentes em triângulo
esperando o destino. Meu outro eu olhou assustado, coitado, não sabia o que
tinha acontecido.
— Olá,
Carlos. Eu disse - Vim de 2041 e as coisas lá estão desastrosas.
Olhou
diretamente para minha mão que tremia. Eu continuei:
— Isso só
vai piorar, cada vez que usar a máquina alguns átomos serão perdidos. É preciso
que você não entre nela, é melhor que você a destrua. Terremotos, tempestades
eletromagnéticas e muitas outras catástrofes, apenas pela simples atitude de
ter usado a máquina.
— A gente
ficou famoso? - Estranho como ignorei tudo o que falava.
— Sim,
mas não como queríamos, seremos odiados.
— Mas eu
quero ver o que acontece também.
— Mas
aquele futuro só existe porque entrei na máquina, então você não verá o futuro
que é seu e sim um alterado.
Meu outro
eu me olhou com certo escárnio, disse com ironia:
— Depois
eu volto e evito a gente de construir a máquina. É melhor.
Antes que
eu pudesse argumentar melhor, contar que já havia tentado isso, ele entrou na
máquina e sumiu.