sábado, 21 de junho de 2014

Dobrar o tempo, ver na esquina.

Duas folhas brancas, livres em minha cabeça.
(Sempre esqueço, não sei desenhar).
Uma caneta amarela em meus dedos.
E os contornos de meus olhos desenham a luz da Lua.
Errei o tom, saiu desafinada.
(Sempre esqueço, não sei compor).
Em uma esquina encontrei comigo.
Cabelos lisos, lentes grossas.
Criança.
Rabiscava, batia em lata.
“o que é isso?” perguntei.
(memória fraca, sempre esqueço)
“Uma nave. Estou viajando no tempo”
E Batia, batia, batia.
“Pronto, cheguei no futuro”
Sorri. Abri minha cabeça.
Meu cérebro escapou, voou.
Olhei para o céu.
“Olha, ás vezes é bom deixar voar” Me disse
Tirei as folhas,
Uma em branco, outra com luz da Lua.
Junto, a caneta amarela.
“desenhe aqui o que não posso esquecer”
Desenhou a Lua desafinada,
Desenhou um poema
Desenhou meu rosto.
Voltou para sua máquina
(eu me lembrei daquele dia)

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Frio

Em uníssono o frio canta lá fora.
Uma canção quase inaudível, 
Suas notas chicoteiam, vibram, driblam
frestas desprotegidas
portas, janelas
Tocam a pele, os olhos, as bocas de todos nós

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Vou nomear minha alma e meu coração, deixarei seus nomes genéricos para os estudos científicos. Pensarei com cuidado em cada letra, vogal e consoante, nos significados filosóficos, etimológicos e neologismológicos.

Quero que, minha Alma (Ainda sem nome) seja mais do que uma expressão subjetiva e torta de minhas poesias.

Quero que meu Coração (ainda assim chamado) tenha personalidade própria, especifica, para que eu possa aprender, ensinar e presentear e que, se houver erro, que seja só meu.

Não dormirei tão cedo

Comecei a fazer poesia
Poesia em trechos,
Coletando cacos,
antigos e futuros.

O volume do pedaço,
aquele abandonado,
é o que importa reciclar.

Hoje, não dormirei tão cedo.
Essa será, minha metáfora da vida.

Para amanhã, que tudo novo,
Até o que se repete.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Colecionadora de coisas intocáveis

Pernas passam todos os dias pela Praça da Republica em São Paulo, levam corpos apressados para destinos, muitas vezes, involuntários. Mas é necessário para quem crê que tempo é dinheiro. Eu era um desses pares de pernas distraídas e apressadas da Cidade quando fui abordado por uma senhora e, de repente, me tornei inteiro:
― Devagar com o andor que o santo é de barro.
― Como? 
― O senhor com essa pressa. Não faz bem ao coração.
― Obrigado, vou me atentar a isso.
― Poderia me dar umas moedas ou comprar algo para eu comer?
― Claro, vamos até ali e te pago um lanche. — Não sou de dar dinheiro, e ela percebeu. Seu sorriso era misterioso. Observava-me sutilmente, com seus olhos cor azul de fome.
Enquanto lanchava perguntei:
― Que frase era aquela? Por que falou para mim?
― É um provérbio. Gosto de acreditar que tenho certos poderes de dedução. Sou uma colecionadora de expressões, anoto tudo aqui nesse caderno. Algumas pessoas tem mania de falar tudo em provérbios populares, anoto todos, veja. 
Mostrou-me seu caderno, tinha tudo anotado lá: Jeito de andar, quanto tempo as pessoas ficavam na praça sem olhar para as árvores, os movimentos dos olhos, bocas; desenhos de tipos de sorrisos e olhares e o que cada um deles significava, os movimentos dos dedos e até mesmo descrição de tom e vibração da voz. 
Cada detalhe daquelas páginas me agradava. Os traços das linhas eram sutis como a expressão de meu rosto que eu tentava disfarçar. 
Pegou o caderno e disse:
― Essa sua expressão de admiração é boa. Obrigada pelo lanche, o dinheiro compra pão, mas não compra gratidão.
― Isso é um provérbio que a senhora ouviu também?
― Sim, brasileiros falam por eles boa parte do dia e eu anoto todos. Anoto porque quero escrever um livro da vida do ser humano a partir de suas expressões e manias. 
— E isso é possível?
— Impossível que não é. Como sabe, de grão em grão....
— A galinha enche o papo, entendi. Boa sorte para a senhora.
— Mais uma vez, obrigada. E menos pressa para você. 
De “Senhor” a “Você” acho que ganhei o respeito dela, que foi embora sem olhar para trás. Sentou-se num espaço da praça que havia se tornado seu. Abriu o caderno e começou a escrever ou desenhar. Pensei: “de grão em grão...”, ou melhor, “de expressão em expressão ela terá um livro”. Pedi mais um lanche e sai pelas ruas, sem pressa, para não ferir meu coração de barro.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Encontrei, perdido, no bolso de minha calça, este poema.
Não exatamente este. O original molhou, manchou,
virou papel azul marinho na água doce, naufragou na memória.
Esqueci o que estava escrito.
Tento reescrever:
Sonhei com um cão que sonhava comigo,
Ele dizia à mim no sonho dele:
"é bom acordar. Não quero ficar preso aqui"
Despertei, um latido vinha da rua,
com a impressão de ser um personagem de Borges.