segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Filosofia de transporte público

Não é novidade, nem para os mais desavisados, que o transporte público é de péssima qualidade, porém de uma grandeza literária e filosófica incomparável (essa última eleva sua qualidade de discussão nos dias de chuvas ou às quartas-feiras)

Muitos não notam, não sabem ou ignoram que os vendedores ambulantes dos trens de São Paulo são as primeiras pessoas a estimular nossas capacidades de reflexão e escolha. Já na nossa infância nos víamos diante do Paradoxo Do Vendedor Ambulante ou P.V.A, que consiste no fato de o quê e quando comprar algo:  “compro esse chocolate agora ou espero por algo melhor de outro vendedor? Mas se eu esperar e não vir nada mais gostoso que o chocolate? Ou se eu comprar e depois vir algo melhor?” Quem anda de trem tem fundos limitados para o comércio dos trilhos. Não esquecendo que reflexão semelhante ocorre também no P.E.O ou Paradoxo Da espera do Ônibus: “vou a pé ou espero? Se eu sair e ele chegar? Mas se eu ficar esperando o tempo exato em que eu chegaria em casa?

Essas reflexões são de máxima importância para se formar um bom Filósofo do Transporte Público. Sem elas nos tornaríamos medíocres observadores de passagem e alheios aos milhares de poemas, contos e tratados esperando para serem escritos a cada viagem.

Conto agora várias observações feitas durantes anos de minha vida. Dar-me-ei ao luxo de juntar tudo numa mesma viagem, com todo poder em mim investido de ser um controlador do tempo de minha literatura, por isso nunca peço perdão por ser anacrônico.

Para que funcione de forma mais poética, digamos que em uma Quarta-Feira chuvosa eu entrei em um trem com destino a desenvolver minha criatividade. 

Mesmo com David Bowie dizendo em meu ouvido que há um homem das estrelas esperando no céu, resolvi ignorá-lo naquele momento, o homem podia esperar um pouco, pelo menos até que a chuva passasse.

A cada parada em uma estação era um novo portal de possibilidades literárias:
Um homem cego contou uma triste história sobre espelhos, sobre Deus ser o reflexo que matou narciso. Dei-lhe, pela ousadia, duas moedas.

Uma senhora com documentos de todos os seus parentes mortos pedia dinheiro por ser solitária. Pobre mulher, não sabe que solidão se acumula, mas não é lucrativa?
Dois senhores com violões e gaitas diziam que quando eram vivos era bem mais difícil de viajar por “aquelas escadas deitadas no chão” e que agora nem precisavam mais de bancos preferenciais 

Uma criança ao meu lado espera ansiosa, com suas notas na mão, para comprar o que aquela caixa retangular lhe oferecer. Falei do Paradoxo Do Vendedor Ambulante e que o compreendia naquele instante, me respondeu que sabia exatamente o que queria e não perderia tempo esperando. Deixei-o com a esperança que nenhum vendedor aparecesse antes de ele precisar ir.

Uma garota de vermelho e cabelos cacheados entrou em uma estação antes de eu precisar sair, tão linda quanto podia, ignorou minha presença, mas não a do vendedor de conchinhas de chocolate, última novidade nas Baixadas, apenas um real.  (A criança, para minha tristeza comprou duas caixas e ainda sorriu para mim).

Vestido e cachos são duas qualidades da estética feminina que me atraem, ainda mais quando acompanhas de um livro de poesia de Fernando Pessoa ou da “Teoria da multiplicação dos pães no mercado financeiro dos peixes”. 

Desci, ainda chovia, o trem foi deslizando, mas sem que seus usuários dessem conta disso.  E o homem das estrelas de Bowie ainda esperava lá no céu.

15 Diga lá::

Zetrusk disse...

Gostei! Parabéns!

Macaco Pipi disse...

Deviamos mostrar isso pra alguns governantes :D

Marco disse...

a vantagem de morar em cidade pequena é de não ter esse problema.

Cafajeste Sedentario disse...

Tu escreve bem pra caramba,mas confesso que não consegui ler até o final. Não que o texto seja ruim,pelo contrário... super bem escrito. Parabéns

AMOR A GENTE NÃO ESQUECE disse...

MUITO BOM FILIPE A CADA DIA SE SUPERANDO
UM GRANDE ABRAÇO!!!!!!!!!!

Victor Lourenço disse...

As paisagens urbanas não riquíssimas. Sempre serão uma inesgotável fonte de inspiração.

Pergunte a uma mulher disse...

O meu pai fala que a grande inspiração dele é a praça, já o ônibus só me inspira a querer morrer lá dentro de tanta gente kkkkkkkkkkkkk

Caroline Luft disse...

Bem interessante.

http://where-you-can-always-find-me.blogspot.com.br/

Day' Anna Arantes disse...

Parabéns pelo texto!

KGeo disse...

muito legal essa filosofia.

mariana prudêncio andreto disse...

Interessante,gostei bastante. ~David Bowie *-*

Juan Dias disse...

Gostei bastante parabéns

http://snestalgia.blogspot.com.br/

Marco disse...

foi postado lá uma boa quantidade de heavy metal cantado em português, não contei, mas deve ter mais de 20 vídeos. lá na parte de baixo têm o que já foi postado, está classificado por países e bandas.

Blog do Italo disse...

Caraca, texto bem escrito pra caramba

Parabens!!

Macaco Pipi disse...

a FILMA QUE VAI E A INDIGNIDADE QUE VEM...


http://www.ziqzira.com.br/

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