sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Gota de raio de Sol.

Com suas belas elevações na terra, onduladas como seios e pernas da mais perfeita beleza feminina, o sol surgia como um parto sombrio e triste ao longo daquela manhã escura e prematura.

Logo ali, abandonado na rede, seu corpo permitiu ser refletido ao mundo. Uma mulher deitada, afastada, solitária e nua olhava aquela morada esquecida onde habitava o seu coração. Seus lábios estremeceram e em seu ventre havia algo indesejado.  Os raios penetrantes e gelados do Sol branco fincavam em sua pele lisa e faziam todas as suas veias virarem cascatas, cada gota derramada contava o tempo, gota vermelha e grossa como mel, com gosto amargo. Gota sem ritmo que parava na terra úmida virando um espelho espesso e opaco.

Aquela mulher, que só se lembrava de chorar, imóvel na rede, tentou se levantar, queria ajuda, qualquer que fosse. Caiu no lago vermelho de seu sangue e nele banhou-se, cobriu seu corpo, seus olhos, seu ventre. Sonhava. Estava em pequena sala sem janelas, deitada em uma cama gelada. Nua, um tubo metálico, ligado entre suas pernas, jogava terra, água e sal em seu ventre, outros dois tubos enchiam seus seios com leite. Sentia dores e enjoo, mas não gritava. Seu corpo mudava aceleradamente, sua barriga cresceu até o nascer de uma criança, uma menina. Não tinha ninguém para ampará-la, caiu no chão. Começou a aumentar de tamanho, não era possível carregá-la, o leite não era suficiente para alimentá-la. A menina estava com fome, chorava de dor, apesar do grande o corpo era fraca, muito magra, mal conseguia mexer a cabeça. Pessoas surgiram a sua volta e todas eram a mesma, um homem com uma cara de reprovação dizendo: “Tira isso que não é meu!”. Passeava com a filha em um carrinho de mão, em um jardim de margaridas brancas, quando uma pinça ou tesoura agarrou a menina e a levou para longe de sua mãe.

Ao abrir os olhos estava em sua rede, completamente suja de terra e sangue, em sua mão uma tesoura e uma pinça que segurava entre as pernas. Não tinha exatamente certeza do que havia feito. Estava fraca, olhou a sua volta e não viu ninguém. Lembrou-se do homem do sonho, seu namorado que havia levado ali, deixando-a sozinha, dizendo que não poderia ter acontecido aquilo, que a culpa era dela e por isso ela mesmo é quem deveria resolver o problema tirando o habitante indesejado de seu corpo. E ela o fez.

Chorar ou se esconder não era mais uma opção, talvez orar, mas para quem?
Não importava, deixou que as palavras saíssem sem destino certo.

Fraca, pálida e triste, com a voz sem alcance começou:

“Senhor, sei que não tenho sido uma pessoa dedicada a seus encantos, nem uma pessoa desprovida de pecados, mas peço que me oriente e me ajude. Se faço parte de Seu pensamento, se faço parte de Ti, se todas nossas almas formam a Sua. E cada parte é uma canção, Sua voz. Peço apenas que me faça ouvir o trecho da canção que em mim habita. Não tenho a pretensão de conhecer a completa canção que criou para o homem; Quero apenas ganhar forças e conseguir tornar verde o que agora está seco”.

Chorou quando terminou, mas não se notaria suas lágrimas, pois uma suave cortina de chuva escorria feito infinitas nascente daquelas nuvens cinzas que antes pareciam pequenas flores.
Deixou-se banhar, cada gota era como uma palavra em resposta a sua oração, todo aquele grosso e amargo espelho vermelho que pintava o chão abaixo da rede ia se atenuando, rachando, mas não se pode dizer que isso daria algum azar.
O Sol já se preparava para seu descanso e o pouco calor que havia naquele dia estava cada vez mais distante.
Lembrou-se do parto da manhã, pensou naquele sol que nascia e ninguém impedia, pensou como era independente aquela Mãe, solteira, linda em suas curvas. Pensou em seu próprio corpo, em suas próprias curvas, em seus sonhos e desejos. “Meu corpo, minha morada”, ela se lembrou da frase de uma amiga e só agora a compreendia. 

Aquela mulher, sem nome para o mundo, com fome e sede, recordou-se de seu sonho com a filha que nunca teria, ela que sempre quis ter uma criança. “Se chamaria Solange”- disse a si mesma.

Tentou se levantar, pálida e sem forças, fracassou, caiu na lama, naquele pedaço de terra esquecida e cheia de sangue. Seu sangue. Ainda chovia, mas desta vez cada gota levava um pouco de seu suspiro, cada gota que massageava seu ventre, já vazio, ia acalmando-o, cada gota em seus olhos os deixavam mais e mais pesados e seu corpo afundando na lama lentamente.

A noite chegou com uma Lua cheia para iluminar a terra sem perspectivas de calor, que refletia  aquelas lágrimas das nuvens que caíam lentamente, como se quisessem aproveitar todo o caminho de sua queda. A terra já havia possuído a mulher, que se deixou possuir com a esperança de tornar-se parte dela e ser finalmente livre em suas curvas e ondulações e quem sabe se outro dia deixar Solange nascer.

5 Diga lá::

Cafajeste Sedentário disse...

Gostei,texto bacana :)

Mosaicos de uma vida disse...

Poxa, dessa vez me fez chorar.

O texto é muito rico em detalhes, além de chocar; pelo menos a mim que ha pouco mais de seis meses sofri um aborto retido (5 dias sabendo que meu bb estava morto dentro de mim)... assim como a Solange do seu texto quem sabe um dia meu Natan venha nascer.

Li Limeira disse...

Palavras vivas...porém triste...Parabéns pelo belo texto!

http://alternativassonoras.blogspot.com.br/

Yuh A. disse...

Tenho um pouco de pena de organizações como a ONU. Historicamente sempre estão fadadas a serem deixadas de lado por países sérios.

O brasil largou a organização antecessora que havia no pós primeira guerra quando a alemanha conseguiu uma cadeira no conselho de segurança enquanto o governo brasileiro tentava peitar o mesmo cargo. Se esse país não fosse uma bosta hoje em dia já tinha largado de mão essa merda e poupado a vida de sei lá quantas dezenas de militares que estão numa missão inútil.

Marco Antonio Freitas disse...

Texto melancólico, mas belo. Parabéns!

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